Saúde pública no Brasil, sob o olhar norte americano

Em 1988, a constituição nacional brasileira prometeu saúde pública no Brasil gratuita a todos os cidadãos.

Através de muitas medidas, o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil levou a enormes ganhos em saúde. A nação tem agora uma taxa de mortalidade infantil de cerca de 13 para cada 1.000 nascidos, contra cerca de 27 para cada 1000 nascidos em 2000. A mortalidade materna também foi reduzida pela metade desde 1990. A expectativa de vida que era de apenas 66 anos em 1990, hoje, alcança respeitáveis 74 anos.

Considerações

No artigo: What the U.S. Can Learn From Brazil’s Healthcare Mess, Olga Khazan relata uma jornada feita pela região de Boa Vista – Recife, com o intuito de formalizar documentos que demonstram o funcionamento da saúde pública no Brasil e usar os moldes brasileiros como parâmetro de prevenção de erros no sistema de saúde dos Estados Unidos.

A Narrativa inicial

Existem apenas cerca de duas camas de hospital para cada 1.000 pessoas. Pode levar semanas ou até meses para fazer um raio X em São Paulo. Somente um quarto dos brasileiros são capazes de pagar planos de saúde particular, e o grande problema é que boa parte da população ainda é muito pobre, vivem em regiões afastadas ou favelas por isso dependem exclusivamente do sistema de saúde distribuído pelo governo. Em 2013, a Folha de São Paulo fez um estudo onde mostra que quase 50% da população considera que a saúde é o maior problema do país. Por incrível que pareça, esse índice é maior do que fatores como violência, desemprego e até mesmo corrupção.

Porque em países da Europa a saúde gratuita funciona mas no Brasil não?

A saúde pública no Brasil é muito semelhante à saúde gratuita da Finlândia, eles oferecem assistência médica gratuita a todos os seus cidadãos, mas o país é menor e mais homogêneo do que o estado de de Mato Grosso do Sul. O Brasil, entretanto, tem 200 milhões de habitantes. E tem aproximadamente a mesma área territorial que os EUA. Em essência, o Brasil não é diferente dos Estados Unidos, exceto por ser um pouco menor e mais quente.

Os americanos já temiam o socialismo e tinha repulsa ao sistema soviético

Os cidadãos americanos têm resistido à ideia de saúde universal desde 1940, quando o presidente Harry Truman tentou lançar um programa federal para treinar médicos e garantir a segurança de todos os americanos. Seu esforço se desintegrou em meio a sentimentos anti-soviéticos.

Naquela época, a maioria das nações do norte da Europa administravam programas nacionais de saúde há anos. A Alemanha foi a primeira: em 1883, Otto von Bismarck procurou reforçar o seu poder concedendo licença médica e seguro de saúde aos trabalhadores. Alguns países vizinhos seguiram o exemplo da Alemanha; outros, como o Reino Unido, optaram por um sistema de pagamento único.

Mas nos Estados Unidos, o medo da redistribuição de renda era grande. Em um disco de LP de 1961 , Ronald Reagan chamou a medicina de “um dos métodos tradicionais de impor estatismo ou socialismo a um povo”. Até hoje, os conservadores costumam usar a palavra “socialismo” como uma espécie de atalho para os perigos do Obamacare.

O Brasil não se incomodou com esses tabus no final dos anos 80, quando se transformou em democracia após a ditadura militar de 20 anos. Ao longo dos anos 60 e 70, os indicadores de saúde do país ficaram muito abaixo dos de seus vizinhos. Parcelas desproporcionais de subsídios habitacionais e dinheiro da previdência social foram perversamente para os ricos.

Os pobres ficaram não apenas sem assistência médica, mas também sem serviços essenciais, como água, esgoto e moradia. Um artigo de 1979, publicado no New York Times observou que nas favelas “a doença dos vermes é excessiva entre as crianças”.

O povo pressiona por programas sociais no Brasil

Movimentos democráticos durante o final dos anos 70 e 80 forçaram a reforma do serviço social, e depois que o regime militar caiu em 1985, os gastos com assistência social aumentaram mais de 30% em apenas três anos. A Constituição de 1988 compreendia 245 artigos que abrangiam quase todas as dimensões da vida brasileira. Junto com as provisões que abolem a censura de imprensa e a criação da licença maternidade.Hoje, o SUS é valorizado como proteção contra altos custos médicos. “O Brasil tem a menor taxa de gastos em saúde que praticamente qualquer outro país da região”, disse James Macinko, professor associado de saúde pública da Universidade de Nova York. “Esse é um nível mais alto de proteção financeira do que o Chile, o México e, certamente, os EUA alcançaram.”A verba destinada a saúde é relativamente baixa: o Brasil gasta apenas 9% do PIB em saúde contra os 18% dos EUA.

Mas o financiamento para o sistema SUS é dividido entre os governos federal, estadual e municipal, e é aí que o problema começa.

Um protesto em novembro de 2012 no lado de fora do Palácio do Planalto, em Brasília, representantes de nove grupos étnicos indígenas da Amazônia pediram por melhores cuidados na saúde em suas comunidades. (Ueslei Marcelino / Reuters)

Problemas regionais

Os brasileiros ricos do sul, tendem a viver melhor e mais saudáveis ​​do que seus compatriotas mais pobres do norte. A taxa de mortalidade infantil do norte é duas vezes maior que a do sul. Essa área pobre do nordeste do Maranhão tem apenas cerca de 0,58 médicos por 1.000 habitantes, enquanto o Rio de Janeiro tem 3,44 médicos para cada 1000 habitantes. No Rio de Janeiro, a população tem duas vezes mais chances de receber cuidados pré-natais do que os estados do norte e nordeste. Em 2012 um percentual entre 62% e 75% da população do sul tiveram êxito quando necessitaram de transplante de rim, enquanto somente um percentual de 13% a 27% das pessoas que viviam no restante do país tiveram o mesmo sucesso.”Além da falta de laboratórios adequados, redes de suporte sanguínea e unidades de terapia intensiva, há uma escassez contínua de infra-estruturas essenciais de saúde, como camas e aparelhos de raios-X”, escreveu Eduardo Gomez, professor de desenvolvimento internacional. no King’s College London, em um recente documento de trabalho . “Mais uma vez, a região mais rica do sul se sai melhor … quando comparada ao norte”.

Dados do Registro Nacional de Nascimento mostram que as mulheres grávidas no sul recebem muito mais cuidados do que as do norte menos abastado.

Embora pessoas com salário mais altos tendam a visitar regularmente médicos particulares, eles se dirigem ao sistema público para obter procedimentos caros, aumentando a concorrência para os pobres que se encontram na mesma situação e que dependem exclusivamente da saúde pública do Brasil. Estes tomam seus direitos à de gratuita de saúde a sério. No artigo da Lancet de 2011 é mostrado como os ricos muitas vezes processam o governo na exigência de medicamentos caros ou procedimentos  médicos para o fornecidos gratuitamente. Afinal, argumentam eles, a constituição exige isso. Em 2008, o Rio Grande do Sul gastou 22% de seu orçamento total com remédios para cumprir 19.000 ordens judiciais.

“Houve esforços dos gestores de saúde para ‘educar’ os juízes para que eles não emitissem tais ordens judiciais” , disse-me Cesar Victoria, autor do artigo da Lancet. “Mas isso ainda acontece o tempo todo.”

Os problemas começam antes mesmo da necessidade médica ou de medicamentos. Os trabalhadores que promovem a saúde de porta em porta em um de seus protestos em Recife por melhores condições de trabalho, exigiam protetor solar em uma de suas pautas. O produto não custa mais do que R$ 30.00.

Por algumas medidas, a desigualdade de renda no Brasil é ainda pior do que a dos Estados Unidos. Enquanto mais de 11 milhões de pessoas não sabem se terão uma próxima refeição, existe uma parcela da população que come bife que custa mais de R$ 300,00

É comum vivenciar nas favelas de Recife casos como a de Jeane Gabriela Pires de Barros, uma menina de quatorze anos, que compartilha um barraco de madeira compensada com seus nove irmãos e sua filha recém-nascida. O Brasil agora considera que quem recebe R$ 300,00 por pessoas em uma família está dentro da classe média, uma forma do que o governo de esquerda achou para passar uma falsa impressão de riquezas aos mais pobres.

A obesidade começa a ser mais uma causa de agravamento na saúde pública no Brasil

Alimentos ricos em calorias e de baixo valor nutricional começam a ser consumidos em grandes escalas. Esse processo faz parte do desenvolvimento natural de uma nação, a busca por praticidade e baixo preço na alimentação andam juntos em qualquer centro urbano. O cotidiano agitado e os baixos valores salarias afastam as pessoas de praticarem exercícios em academias, e, para aqueles que moram em periferias, muitas vezes uma saída para uma caminhada ou corrida, pode ser um tanto quanto perigoso.

Doenças como a diabetes faz parte do cotidiano de muitas pessoas e muitos mal sabem identificar como que adquiriram a doença ou como eles podem através de um novo hábito nutricional, começar a cuidar do problema.

Infra-estrutura e organização ruim

Existem cerca de 40.000 desses centros de saúde em todo o país. Na cidade de São Paulo esses centros são divididos em AMA (Assistência Médica Ambulatorial), UBS (Unidade Básica de Saúde), AME (Ambulatório Médico de Especialidades). O problema, é que com tantas siglas, boa parte da população mal sabe por onde começar a procurar ajuda médica. Os agentes comunitários de saúde e enfermeiros colocam os registros médicos de cada família uma pasta, a medicação é dispensada na clínica, e muitas vezes falta medicação. No Recife algumas regiões foram demarcadas por cores, e cada qual tem seu respectivo horário para uma consulta médica. O problema deste método é que inviabiliza a ida ao médico para quem coincide os horários com o trabalho.

No Brasil, como nos Estados Unidos, os médicos tendem a vir de áreas mais ricas  e, em grande parte, é onde ficam. Mais da metade dos neurologistas do país, por exemplo, vive ao longo do corredor sudeste, apenas um por cento vive no norte. Poucos jovens médicos querem se ficar em regiões violentas e com baixa oferta de trabalho para seus conjugues.

Mesmo em áreas urbanas, as clínicas carecem de pediatras ou de outras especialidades. Existem muitos relatos de pacientes que afirmam precisar pegar mais de quatro ônibus para conseguirem chegar ao pronto socorro. “É normal marcar uma consulta com um especialista e chegar lá depois de uma longa e cara viagem de ônibus para saber que ele havia cancelado a consulta.” Relata um morador de Boa Vista – Recife.

Para resguardar a população de tais problemas, o governo de Dilma Rousseff importou mais de 13.000 médicos principalmente de Cuba sob a narrativa de atender a população nas regiões mais pobres e isoladas do país. O problema agora fica na desconfiança da população com relação à mão-de-obra prestada para a comunidade e na possibilidade do governo estar usando a problemática para justificar a injeção de dinheiro em países que partilham da mesma ideologia de governo.

A diferença entre os Estados Unidos e o Brasil

Os EUA estão melhor posicionados para a saúde universal em comparação ao Brasil. O PIB nominal norte americano atualmente fica por volta de 7 vezes mais do que o PIB do Brasil, a democracia funcional ocorre há 238 anos. Nos EUA também existe uma cultura de sistema de leis que dificultam a corrupção que aflige o sistema de saúde pública no Brasil. (Quando o governo brasileiro solicitou empreiteiros para projetos de saúde e desenvolvimento, o pedido de licitação apareceu apenas uma hora antes do prazo final e as únicas empresas que atenderam ao limite de tempo foram chefiadas por parentes de políticos locais).

A cobertura de saúde americana ainda está longe de ser universal, mesmo sob o Obamacare.

Vermont e Maryland estão experimentando os aumentos de controle do governo na área da saúde, mas poucos estados provavelmente seguirão o exemplo. Na verdade, 19 estados estão se recusando a expandir o projeto e pelo menos 30 milhões de pessoas devem permanecer sem seguro, mesmo depois do Obamacare ser totalmente implementado.

O exemplo que NÃO deve ser copiado

Obamacare dará a milhões de americanos melhor acesso a médicos, e é neste momento que o Brasil fornece diversas advertências com o seu modelo de saúde pública.  Ampliar o acesso à saúde, não faz sentido sem os recursos para fazê-lo funcionar. Segundo alguns estudos, os EUA precisarão de mais 91.500 médicos até 2020 para tratar os recém-segurados. Cerca de 20% dos americanos vivem em áreas sem médicos suficientes. Há uma taxa baixa de pessoas nas áreas rurais que ingressaram na faculdade de medicina. Uma outra problemática fica por conta das grandes áreas territoriais, como por exemplo no Condado de Live Oak, Texas, que abrange 1.600 quilômetros quadrados e abriga 12.000 pessoas. Lá, simplesmente não existe cuidados primários.

E não é apenas a atenção primária, a Associação de Faculdades de Medicina Americana também projeta que os EUA precisarão de mais 46.000 especialistas na próxima década.

Os pacientes recém-beneficiados pelo Medicaid provavelmente se sairão ainda pior, quase um terço dos médicos não aceitarão pacientes do Medicaid por causa das menores taxas de reembolso do programa e as dificuldades administrativas agravarão ainda mais a situação. Alguns especialistas apontaram que em breve poderemos ver um sistema de saúde de dois níveis: os que seriam atendidos pelos Medicaid, que ficariam semanas para serem atendidos, e os mais ricos que poderiam ficar com os melhores hospitais e com atendimentos rápidos.

O exemplo que DEVE ser copiado

O Brasil também atacou as doenças não transmissíveis com uma política social rápida. Os primeiros sinais de uma epidemia de obesidade foram tratadas com uma série de leis de controles no sistema de distribuição de merenda escolar. O popular programa Bolsa Família do país, paga as mães pobres para fazerem check-ups para si e seus filhos. E, como muitos outros países com assistência médica universal, o Brasil negocia agressivamente os preços dos medicamentos para ajudar a manter as prescrições baratas e disponíveis. O país foi capaz de reduzir drasticamente as mortes por Aids, fornecendo antirretrovirais gratuitos depois de entrar em guerra com empresas farmacêuticas americanas.

Pode levar muitos anos até que todos os americanos possam obter assistência médica decente e acessível. Nossa incrível desigualdade de renda se manifesta em nosso bem estar: grandes segmentos da população dos EUA carecem de boa moradia, educação e condições de trabalho, sem mencionar o acesso a alimentos frescos. Os americanos pobres vivem mais doentes e morrem mais cedo do que os mais ricos, sofrendo em taxas mais altas de obesidade, hipertensão e diabetes. Ao lidarmos com as falhas em nosso próprio sistema médico, nossas lições mais valiosas podem vir melhor da Europa do que as promessas confusas e parcialmente cumpridas do Brasil.

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Por |2018-11-04T01:22:00+00:0029 de outubro de 2018|Categorias: Saúde|Tags: , |2 Comentários

2 Comentários

  1. Vacina DTP - Deliberada | Mente 02/11/2018 at 2 de novembro de 2018 - Reply

    […] o artigo sobre a  saúde pública no Brasil, na visão de uma americana na periferia de […]

  2. Corrupção no Brasil - Deliberada | Mente 11/11/2018 at 11 de novembro de 2018 - Reply

    […] aqui e confira o artigo sobre a saúde pública no Brasil sobre a perspectiva norte […]

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